O Globo, Opinião, 13/03/2006:
ANDREI BASTOS
Falar de moradia acessível é falar de uma verdadeira revolução cultural. Não poderia começar por lugar melhor do que o próprio espaço da habitação. Mesmo o desenho industrial e a ergonomia deixam de examinar e incorporar as necessidades especiais, dessas pessoas especiais, e não estabelecem parâmetros que as incluam no uso dos espaços e objetos. Os cursos de arquitetura, engenharia e design, técnicos e universitários não têm cadeiras dedicadas ou incorporam seus conceitos.
Apenas para demonstrar a natureza cultural da falta de consciência da deficiência, a física, conto uma experiência: ao me locomover com muletas por calçadas ou corredores de shoppings, com freqüência estanco cara a cara com pessoas sem deficiência, muitas vezes jovens, que ficam paralisadas diante de mim como a querer que eu dê a volta, desimpedindo o caminho. Fico parado, encarando com um sorriso, e depois de um tempo de impasse e hesitação, “a ficha cai” e as pessoas dão a volta, às vezes pedindo desculpas.
Isso acontece porque esta é nossa prática desde os tempos primitivos, com o abandono no caminho, para morrer, de idosos, doentes e pessoas com deficiência... Nossos olhos perfeitos não estão educados para ver tais diferenças e considerá-las como parte do nosso universo (certas coisas só acontecem com os outros).
Mas o mundo mudou, estamos vivendo mais tempo e melhor, a medicina está vencendo a maioria das doenças e as pessoas com deficiência estão reagindo. São esses avanços que nos obrigam a refletir sobre as condições de habitação.
Afortunadamente, uma das mais significativas providências para promover essa mudança de comportamento foi a iniciativa do Sinduscon-Rio (Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado do Rio), que resolveu enfrentar o problema dentro de casa: elabora um Guia de Verificação em Acessibilidade, a ser adotado pelas construtoras filiadas.
O maior detalhamento possível, o cuidado necessário para não deixar passar nada, com longas leituras e discussões de itens do Código de Obras, das exigências do Corpo de Bombeiros e da Prefeitura, assim como das leis que contemplam a acessibilidade, e o trabalho sem açodamento — tudo isso está sendo possibilitado pela dedicação dos engenheiros que compõem o grupo.
A dica é essa: deve ser aí, no momento da concepção, no caso edificações destinadas à moradia das pessoas (de todas elas), que a preocupação com a acessibilidade precisa ser incorporada. Se a sociedade — especialmente as empresas de ônibus— fizer como os engenheiros que constroem as edificações no Rio e educar os olhos para enxergar a realidade múltipla de cara, incorporando ao seu processo criativo e de construção o atendimento a todas as necessidades humanas de locomoção e manipulação de objetos, especiais ou não, será feita a revolução cultural . Não é difícil, proporciona uma vantajosa relação custo x benefício se integrada ao projeto, e todos saem ganhando. Os engenheiros do Sinduscon-Rio dão um belo exemplo.
ANDREI BASTOS é jornalista e autor de um blog no site Comunique-se(http://www.blog-se.com.br/blog/conteudo/home.asp?idBlog=16115&id_destaque=245978).
sábado, 29 de março de 2008
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